quarta-feira, 15 de setembro de 2010

...jekyll e hyde...


Esta semana foi sacramentado o destino acadêmico da pimpolha. Mudança de colégio, mais perto de casa (ou da casa da vó a partir do ano que vem), colégio maior, enfim. Fui na secretaria buscar a papelada, dar andamento aos trâmites. Logo ao entrar pela porta da secretaria em si, de frente para o pátio de entrada bem cuidado, vejo uma jovem senhora, atarefada ao telefone, explicando em um puxado sotaque nordestino (me pareceu baiano...) para alguém do outro lado da linha que ela mesma ligou para dezenas de pais, pedindo que viessem buscar a documentação na escola e coisa e tal. Não sei qual era o problema, nem qual era a demanda do interlocutor. Mas, do alto de minha perspicácia, concluí: “é a secretária!”. Ela desligou e virou-se para mim, que fingia não estar ouvindo a conversa do telefone. Na verdade o que eu ouvia era um monólogo, porque só escutava uma das partes falando, mas enfim... virou-se e perguntou o clássico “pois não?”, chiando um pouco no “pois” e anasalando o “não”. Baiana, definitivamente! Resolvi aliviar um pouco o ambiente e respondi, sorriso largo, “é exatamente isso. Vim buscar a documentação para a matrícula”, sem notar que acabava de entregar meu disfarce de “não-ouvidor de conversas”. Droga!
Mas deu certo. Ela respondeu o sorriso e, como uma doce mãe orienta o filho, com gestos quase angelicais, a voz suave e muito simpática me indicou a porta da tesouraria, que ficava em uma sala ao lado, “depois do corredor à direita”, disse. Agradeci e recebi um “de nada” ainda mais simpático. Senhora legal, pensei.
Na sala ao lado, recebi a informação de que a irmã (é um colégio católico) que cuida da tesouraria estava em um curso e, por isso, a dita cuja (a tesouraria, não a irmã) tinha fechado mais cedo naquele dia. Como já tinha sido amaciado pela simpatia da tia da secretaria (puxa... rimou tudo!), deixei meu obrigado e que voltava no dia seguinte, sem problemas, quiéisso, tudo bem.
Saí da sala, retornei pelo curtíssimo corredor e abri a porta que me levaria de volta à presença da querida tiazinha baiana. Ao passar pela mesa, me preparando para o “boa tarde”, vejo o sorriso novamente, acompanhado da pergunta: “tudo certo?”. “A irmã da tesouraria está num curso e tiveram que fechar mais cedo. Amanhã eu volto”, respondi.
O sorriso foi embora quase que ao mesmo tempo que um voz gutural saía da boca da tia baiana. “Mas como assim?”. Cenho franzido, já girando na cadeira e, não tenho certeza, mas posso jurar que ela esmurrou a mesa. Eu arregalei os olhos. Podia sentir as portas do inferno se abrindo ao meu redor e labaredas crepitando pela sala. Pensei em pedir desculpas... sei lá... o que a gente diz para uma pessoa possuída? “Mas a gente chama o senhor aqui e o senhor vai pra casa de mãos vazias? Isso não pode!” completou, enquanto levantava e se jogava para fora da sala, em direção a algum lugar que nem imagino, mas que devia estar sendo devidamente destruído pelas forças do mal. Na saída, enquanto a porta fechava atrás dela, pude ouvir, cravejado pelo sotaque de Satã nordestino “quê que é isso, tchê?!”. Uma baiana falando “tchê” é, no mínimo, peculiar. Pra ver como a situação estava grave.
Pouco depois, ela retorna e, entreabrindo a porta, me diz para passar de novo na salinha ao lado. Desta vez, tenho reforço. A tia me acompanha. Chegando lá, uma moça entra por uma porta mais afastada, atrás do balcão, com uma cara meio desenchavida. Não sei o que é uma cara desenchavida, mas deve ser aquilo. Certo que era a moça que a tia tinha ido regar. Quando ela termina de passar pela porta, a querida baiana ao meu lado diz “é esse pai aqui, ó”. As outras, que tinham me atendido antes, me olham com aquela cara de “não acredito que tu foi fazer fofoca...” e eu tentando, telepaticamente, dizer que não tinha culpa, gente, eu já tava saindo quando a Linda Blair surgiu na frente...
Peguei a documentação. Na saída a baiana não estava lá e não pude me despedir. Mas tudo bem, agora vamos freqüentar o mesmo local. Só espero encontrar a tia num dia bom.

Um comentário:

Jonas Franz disse...

Voltando a ativa então, Dr!???

Lí todo o texto, mas esse formato de letras, ou as cores, ou a combinação de tudo isso, cansa os olhos... pqp!!! muda isso!!! e atualiza, claro! hehe...
abraço!